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domingo, 31 de março de 2013

O sentimento de vergonha como regulador moral



Prof. Dr. Ulisses F. Araújo
Departamento de Psicologia Educacional
Faculdade de Educação / UNICAMP
Este artigo objetiva apontar a relevância da vergonha como um
sentimento fundante para o funcionamento psíquico e para a compreensão da
moralidade humana. Percorrendo estudos que diferenciam a vergonha de
outros sentimentos morais, como a culpa, e algumas discussões na Psicologia
sobre o papel que os sentimentos exercem na regulação psíquica, com ênfase
na moralidade, procura mostrar o papel da vergonha na constituição da
personalidade humana.
Palavras-chave: vergonha; moral; regulação psíquica.
Os estudos à respeito do sentimento de vergonha vem se impondo,
principalmente aos pesquisadores da psicologia do desenvolvimento e da
personalidade, como central para a construção de teorias mais completas e
integradas sobre o desenvolvimento humano. Nosso objetivo com esse artigo é
apenas o de apontar a relevância de se aprofundar esses estudos e de
caracterizar a vergonha como um sentimento fundante para o funcionamento
psíquico e para a compreensão da moralidade humana.
A vergonha, exercendo um papel regulador nas relações interpessoais
e intrapessoais, pode ser considerada como um dos sentimentos mais
relevantes para nossa experiência com o mundo. Apesar de sua importância,
historicamente a psicologia não dedicou maiores esforços na compreensão de
sua natureza e seu papel na vida humana. Somente nos últimos anos um
número cada vez maior de psicólogos vem se dedicando ao tema.
Apresentando um dado simples, apenas para demonstrar o crescente interesse
que esse sentimento vem despertando nas publicações internacionais, ao se
buscar textos que tenham a palavra “vergonha” (shame) como referência na
base de dados bibliográfica Psychological Abstracts da American Psychological
Association, encontram-se 461 referências no período compreendido entre
1974 e 1989 (16 anos), enquanto no período entre 90 e 96 (7 anos) este
número cresce para 481 referências. Para se ter uma idéia do que representa
esse número em termos de publicações, quando o levantamento é feitobuscando referências à palavra “culpa” (um sentimento muito associado à
vergonha, como veremos adiante) surgem 2.497 publicações no período entre
74 e 89, e 1318 publicações no período compreendido entre 90 e 96.
Certamente o número de publicações sobre a vergonha ainda é bastante
restrito, considerando ser esta uma base de dados bibliográfica internacional.
Demonstra, no entanto, um crescente aumento do interesse sobre o tema nos
últimos anos.
O biólogo britânico Charles Darwin é considerado o pioneiro no estudo
científico da vergonha no comportamento humano. Em seu livro “The
expression of the emotions in man and animals (1872/65)” dedica um capítulo à
característica exclusiva da espécie humana de ruborizar (blushing), de corar as
faces, provocada pelo sentimento de vergonha. Darwin acreditava ser este
sentimento o mais peculiar e o mais humano de todas as expressões, e que
seu surgimento depende de dois elementos: a reflexão sobre si mesmo de
alguma característica de aparência pessoal; e o pensamento sobre o que os
outros pensam de nós.
Os estudos de Darwin, assim como de outros autores que
aprofundaram as discussões sobre o tema (Lewis,1992; e Ablamowicz,1992),
mostram que a vergonha pode se refletir sobre o corpo do sujeito, dependendo
da situação em que surge, se na quebra de uma relação interpessoal ou se
numa exposição pública. Por exemplo, dentre as conseqüências descritas por
sujeitos que vivenciaram o sentimento de vergonha, destaca-se o corar das
faces (blushing), a dor, e a vontade de desaparecer, de tornar-se invisível. 
A psicologia não deu muita importância a este trabalho de Darwin.
Entendemos que os movimentos teóricos vinculados à psicanálise e à
psicologia cognitiva, pela força que tiveram neste século no campo da
psicologia, têm uma certa responsabilidade pela pouca importância dada ao
estudo psicológico da vergonha. A psicanálise, porque seu criador, Freud,
relegou a vergonha a um segundo plano, ou melhor, quando abordava a
ocorrência desse sentimento era para referir-se a questões de sexualidade
e/ou de exposição corporal pública, e não a considerava um sentimento
fundante para as ações morais (na teoria psicanalítica esse papel é
desempenhado pela “culpa”); já a psicologia cognitiva, que vem dominando as
atenções das ciências psicológicas nas últimas décadas, prioriza os aspectosracionais da ação humana e acaba por subordinar à razão o papel dos
sentimentos e das emoções, que geralmente são vistos como componentes
meramente biológicos da ação.
Na psicologia, quando não desconsiderada, a vergonha geralmente é
vista como um sentimento atrelado à culpa, mas inúmeros trabalhos recentes
vêm demonstrando que, ainda que muitas vezes possam se manifestar juntos,
são sentimentos de natureza distinta e não podem ser confundidos. Hultberg
(1988), por exemplo, afirma que esses sentimentos não podem ser vistos como
opostos, uma vez que são constantemente experienciados juntos, mas “a culpa
pode ser vista como uma reação a uma ação, enquanto a vergonha como
reação a um modelo existencial (p.116)”.
Para Lewis (1993,p.569), a culpa é um estado emocional que ocorre
quando o indivíduo avalia negativamente seu comportamento, mas pode se ver
livre deste sentimento se realizar uma ação que repare a ação negativa. Já a
vergonha não é produzida por nenhum evento específico, mas pela
interpretação que o indivíduo faz de uma situação, e por isso, uma vez que o
sujeito sente vergonha, não é possível reverter o sentimento. 
Não tivemos, com as considerações acima, a intenção de aprofundar a
discussão sobre as diferenças entre os sentimentos de vergonha e de culpa, e
muito menos de valorar se um é mais importante do que outro. A intenção foi a
de pontuar a distinção, e justificar a importância de se realizar maiores
investigações sobre o papel da vergonha na vida humana. 
• A caracterização do sentimento de vergonha:
Lewis (1992), em um dos trabalhos recentes mais significativos sobre o
tema (Shame: the exposed self) identifica a vergonha como uma emoção
secundária, juntamente com a inveja, o ciúme, a empatia, o embaraço, o
orgulho e a culpa, uma vez que esses sentimentos envolvem uma consciência
de si. Por outro lado, sentimentos como alegria, tristeza, raiva, surpresa, medo
e desgosto são identificados como emoções primárias, por não solicitarem
introspecção ou auto-referência. Para ele, a vergonha é um sentimento básicopara a constituição do self. Ela envolve uma auto-reflexão baseada em valores
pessoais e no de outras pessoas, e o fracasso em atingi-los levará o sujeito a
um estado que poderá fazê-lo experienciar ou não o sentimento, dependendo
da objetivação de sua reflexão.
Esse autor classifica a vergonha dentro de uma categoria que chama
de “self-conscious emotions”, porque seu aparecimento envolve a elaboração
de processos cognitivos complexos, a noção de self e a avaliação global que o
sujeito faz de si. Para sentir vergonha, a pessoa deve comparar se sua ação
contraria ou não algum referencial próprio ou de outras pessoas que lhe sejam
significativas, e este fato requer uma tomada de consciência objetiva e uma
avaliação complexa de sua ação.
Esse caráter cognitivo da vergonha vinculada ao self faz com que ela
possa surgir tanto a partir da interpretação pessoal negativa que o indivíduo faz
de uma situação em que está envolvido (relacionada à avaliação que faz de si
e de seus valores, regras e objetivos pessoais); quanto pode advir de situações
positivas em que seu Eu é exposto publicamente, como, por exemplo, no caso
de receber aplausos de uma platéia. 
Por que isso? De acordo com Harkot-de-La-Taille (1996) a razão seria
que a vergonha é resultante de um fazer do sujeito envergonhado relativo à
projeção de uma imagem de si. Em sua tese de doutorado “Ensaio semiótico
sobre a vergonha” ela afirma que as premissas, ou a base para a vergonha
são:
“Um sujeito tem um simulacro existencial, isto é, faz
projeções de si num imaginário de confiança e relaxamento; dentro
de seu simulacro existencial, ele constrói para si uma imagem que
considera representá-lo, uma imagem com a qual se identifica e se
confunde. Desliza, portanto, do parecer para o ser, imagem e sujeito
constituindo um mesmo e único valor... de posse de uma imagem de
si, uma circunstância inesperada vem arrancar o sujeito de seu
estado de confiança relaxada: percebe que o modo como se vê
mostra-se em desajuste com o modo como se vê visto. Como
imagem e sujeito se confundem, o sujeito reconhece não ser o que
pensava ser e teme o juízo dos outros, uma vez que sua nova e
indesejada representação é a imagem que os outros podem vir a ter
de si. Está formada a base para a vergonha”( p.4).A definição acima utilizada por Harkot-de-La-Taille leva a autora a
compreender que a vergonha se configura no encontro de dois sentimentos: a
inferioridade e a exposição.
A inferioridade, “que traduz a relação do sujeito com a imagem que se
acreditava capaz de projetar”, se manifesta de várias maneiras: pelo
rebaixamento de si, pela humilhação, pela desonra, causada por opiniões
negativas que os outros têm de sua imagem projetada; e a Indignidade, sentida
a partir de uma auto-sanção negativa imposta pelo sujeito a si mesmo. 
A exposição é sentida quando o sujeito é visto por alguém que ele
legitima, e possui dois correlatos: a consciência da visibilidade por alguém
legitimado e a vulnerabilidade, advinda da ação de submeter a imagem
projetada ao juízo de outrem. 
Dessa maneira, para Harkot-de-La-Taille, a vergonha instaura-se no
encontro da inferioridade sentida quando a imagem projetada pelo sujeito se
encontra aquém da “boa imagem” que tem para si, com a visibilidade de expor
essa imagem a um sujeito legitimado.
Em resumo, podemos entender que a vergonha poderá ser vinculada
ao rebaixamento do self, por exemplo, em situações em que o sujeito se sente
humilhado pelo outro que legitima; e também vinculada à exposição pública,
por exemplo, quando existem espectadores, reais ou virtuais, na cena em que
foi exposto. 
Essas primeiras reflexões mostram que a vergonha pode ser
compreendida principalmente como um sentimento intrapessoal e interpessoal,
orientado externamente, em função da consciência do olhar do outro sobre
nós. De acordo com De La Taille (1996a, p.11), “o sentimento de vergonha tem
origem no fato de eu me fazer objeto do olhar, da escuta, do pensamento dos
outros”. Mas isso não exclui o aspecto interno deste sentimento, representado,
por exemplo, pelo fato de o sujeito poder sentir vergonha sozinho, resultado de
reflexões sobre ações pessoais que contrariaram seus valores e a imagem que
tem de si.
Este olhar do outro, que pode ser real ou imaginário, de um indivíduo
ou de um coletivo, guia muitas de nossas ações cotidianas, dependendo da
valoração que atribuímos a esse outro. Essa valoração está vinculada ao
sentimento de identificação que construímos com as outras pessoas e/ou como grupo social a que pertencemos, e aos seus ideais de conduta. Assim, para
esse sentimento aparecer dessa forma, torna-se necessário uma relação
interpessoal significativa, ainda que imaginária, quando a pessoa poderá sentila mesmo sem a presença do público, por estar internalizada. A vergonha
estaria, pois, vinculada a controles externos e internos do próprio sujeito.
Tudo isso evidencia a natureza reguladora do sentimento de vergonha,
não só das relações interpessoais, mas também das relações intrapessoais, do
sujeito consigo mesmo, de ser objeto para si e para os outros.
Mas qual a gênese do sentimento de vergonha? Esse sentimento
parece surgir e estar relacionado à origem do processo de socialização vivido
pela criança em suas relações com os adultos, desde o “toillete training”, como
afirma Erickson (1963), quando a criança tem de aceitar os comportamentos
sociais solicitados, e tem de desenvolver um autocontrole para evitar a
fraqueza de não atingir as expectativas dos pais. Essa gênese, portanto,
parece estar relacionada à tomada de consciência de si por parte da criança, o
que só acontecerá na socialização, no momento em que tomar consciência de
que é objeto para os outros.
Por outro lado, antes da socialização e da tomada de consciência de si,
que aconteceria a partir de aproximadamente 18 meses de idade (Lewis,1992;
De La Taille,1998), pode-se também buscar a origem deste sentimento na
construção dos esquemas motores de ação, característicos do período
sensório-motor descrito por Piaget. A experiência prazerosa de exercitar os
novos esquemas construídos, e a valoração atribuída pelos pais aos novos
conhecimentos, parecem ser a origem cognitiva da socialização e da
constituição do self que, juntamente com a construção da função semiótica,
permitirão à criança se integrar num mundo representacional de interações
sociais muito mais complexas, condição esta essencial para o surgimento da
vergonha. 
Essa vergonha, num primeiro momento, caracteriza-se pela pura
exposição ao olhar alheio, mas à medida que os sistemas de valores vão
sendo construídos pelo sujeito, e vão sendo cognitivamente reorganizados de
forma paulatina, a vergonha vinculada a padrões, regras e objetivos (conforme
define Lewis,1992) vai se tornando mais comum. De La Taille identifica emsuas investigações (1998) que o sentimento de vergonha poderá então se
manifestar quando as ações se referirem:
“a uma ’meta’ (não obter algum sucesso, ter fracasso); a um
‘padrão’ (por exemplo,estético); a uma ‘norma’ (como a transgressão
de uma norma moral); e poderá também ser associado a uma
‘humilhação’ (portanto à alguma forma de rebaixamento da vítima); e
também por ‘contágio’ (sentir vergonha por ações de um amigo). 
Com essa categorização, entramos em uma área que mostra poder
estar o sentimento de vergonha relacionado a ações que envolvam a exposição
pura ao olhar dos outros, a padrões, e “contágio”, não tendo nesses casos
conotação moral direta. Contudo, a vergonha também pode se relacionar à
moralidade, por exemplo quando se vincula a metas, normas e à humilhação. A
vergonha moral será o próximo tópico a ser abordado.
• O sentimento de vergonha e a moralidade:
Iniciamos este tópico trazendo de novo, brevemente, a discussão sobre
o sentimento de culpa. A força atribuída ao sentimento de culpa nas culturas
ocidentais deve-se, em grande parte, à estrutura religiosa judaico-cristã que
predomina nessas sociedades, e ao fato de que esse sentimento fundamenta
as concepções de moralidade dessas religiões. Nas culturas ocidentais,
portanto, quando há referência sobre sentimentos relacionados a ações morais,
normalmente são feitas associações com o sentimento de culpa. E muitas
correntes psicológicas parecem ter refletido esse pressuposto em suas
concepções. 
Por exemplo, Freud (1930/74), ao tratar deste tema, colocou o
sentimento de culpa como o mais importante para a constituição da moralidade
no ser humano, alegando ser esse o sentimento predominante para a
constituição e o funcionamento da parte do aparelho psíquico responsável por
nossas ações morais: o superego. Resultante da internalização da
personalidade dos pais no sujeito, o superego age sempre que as ações e/ou
intenções do ego contrariam seus ditames, por meio da censura, repressão,
autopunição e de sentimentos negativos como a culpa.Somente nas últimas décadas aparecem trabalhos mais consistentes
procurando analisar, de maneira crítica, as relações entre a moralidade e os
sentimentos, salientando a importância que outros sentimentos (como a
vergonha, a compaixão, e a honra) têm para as ações morais. 
No caso da vergonha, de acordo com Lewis (1992), ela possui também
uma função moral porque coisas que nos envergonham não devem ser feitas e
“a intensidade de experiências aversivas servem para garantir que os
pensamentos, ações ou sentimentos que nos levam a sentir vergonha, não
ocorram novamente (p.140)”.
Thrane (1979) mostra que a importância dada à culpa no ocidente
origina-se da predominância de sua lógica na tradição judaico-cristã. Ele
concorda com a importância do sentimento de culpa para a constituição da
moral, mas defende, baseando-se em Kant, que esse sentimento acaba
favorecendo a moral de heteronomia, uma vez que aquele que deixa de agir
com medo da punição de sua consciência parece não amar a virtude. Pelo
contrário, para esse autor, o sentimento que permite a construção da
autonomia é o de vergonha, sentido por aquele que teme perder suas virtudes.
Quando da afirmação de Piaget de que “o elemento quase material de
medo que intervém no respeito unilateral desaparece progressivamente para
dar lugar ao medo todo moral de decair perante os olhos da pessoa respeitada
(1932/94,p.309)”, esse autor também parece defender o preceito de que a
moral decorrente de um desenvolvimento psicogenético mais equilibrado tem
como base a vergonha de decair perante os olhos da pessoa respeitada (ver
De La Taille,1996a,p.16). Com isso, pode-se inferir a possível relação entre os
sentimentos de vergonha e respeito mútuo para o desenvolvimento
psicogenético da moralidade. 
Concluindo, de acordo com De La Taille (1996a), a pessoa que “não
tem vergonha” pode ser relacionada à pessoa imoral, porque:
“uma pessoa ‘sem vergonha’ é justamente alguém que, por um lado,
ignora e despreza o juízo dos outros (não reconhece o controle
externo) e, por outro, não considera condenável, aviltante, cometer
certos atos condenados pela moral. A imagem que tem de si não
parece sofrer com a realização de atos imorais (p.16)”.Diante do que até aqui discutimos, podemos assumir que existe a
possibilidade de o sentimento de vergonha ter um caráter moral, que não se
subordina à culpa e que, por isso mesmo, merece ser estudado de maneira
isolada. Duas perguntas surgem agora: uma é sobre a origem do sentimento
de vergonha como um “sentimento moral”, e a outra se a vergonha pode ser
compreendida funcionando como reguladora das relações intra e interpessoais.
Respondendo à primeira pergunta, entendemos que é nas interações
da criança com o mundo, mais especificamente com a família, que seus
valores e regras vão sendo construídos e internalizados. A internalização dos
valores parentais é obtida a partir da transmissão social e da reflexão do
sujeito, mas também pela crítica à sua violação, por meio de sanções como a
humilhação e a ameaça de retirada de afeto. A família, por exemplo, além de
estabelecer as regras para o comportamento do sujeito, vincula uma valoração
para as mesmas e, pelos laços afetivos e/ou pela identificação estabelecida
entre as pessoas envolvidas, a violação dessas regras ou as ações contrárias
aos valores podem elicitar o aparecimento do sentimento de vergonha que, por
estar vinculado à infração de regras e/ou valores, caracteriza-se como uma
vergonha moral. À medida que essas regras se tornam conscientes para o
sujeito, e que esses valores se integram em escalas normativas, o sentimento
de vergonha começa a exercer um papel mais complexo, de regulação, na sua
estrutura psíquica.
Para responder à segunda pergunta, apontamos a afirmação de Piaget
(1954/81) de que a energética das relações entre pessoas é os sentimentos
interpessoais e que sua vinculação com as escalas de valores do sujeito levará
à construção de “sentimentos morais”. Podemos, então, inferir que o
sentimento de vergonha pode ser compreendido como um “sentimento moral”
quando estiver relacionado à regulação intra e interpessoal estabelecida sob
conteúdos de natureza moral. 
Prosseguindo esse raciocínio, podemos entender ainda que a
vergonha está relacionada aos fracassos, às imperfeições, às inadequações e
às fraquezas do sujeito diante das regras e de seus valores. Mas, para que
tenha a categoria de um “sentimento moral”, é necessário que essas regras e
valores tenham relação com conteúdos de natureza moral, aqui incluídos os
princípios morais de justiça e igualdade, mas também virtudes comohonestidade, generosidade e coragem. Assim, é necessário que esses
conteúdos de natureza moral estejam integrados na escala normativa de
valores do sujeito, integrados à sua personalidade, compondo sua identidade,
para que a ação que não esteja de acordo com esses valores e ideais levem ao
“sentimento moral” da vergonha. 
Como afirmam Blasi (1995), Damon (1995) e De La Taille (1996b,
2002), é necessário que os valores morais não sejam periféricos e sim
integrados à personalidade do sujeito, à sua identidade, para que ele tenha a
motivação de agir moralmente. Ele poderá sentir a “vergonha moral” somente
se sua ação não estiver de acordo com os valores morais integrados em sua
personalidade. No caso de sua escala de valores ter sido construída com base
em conteúdos de caráter não moral, poderá sentir mais vergonha, por exemplo,
de ser feio do que de ser visto agredindo gratuitamente uma pessoa na rua. 
Sintetizando a discussão, entendemos que as diferenças individuais
relacionadas às situações em que o indivíduo sente vergonha estão
normalmente relacionadas à imposição pela família e pela cultura de alta
valoração a determinadas regras e/ou comportamentos e/ou valores, e ao tipo
de vinculação afetiva estabelecida entre o sujeito e a fonte dessas regras e/ou
valores. 
Buscando estudar as idéias apresentadas, desenvolvemos uma
pesquisa que tentou detectar o papel regulador do sentimento de vergonha. Tal
trabalho fez parte de nossa tese de doutorado (Araújo, 1998) e foi publicado
em outra ocasião (Araújo, 1999). Foi evidenciado nos resultados da
investigação que a vergonha tanto pode ter uma natureza moral, quando for
elicitada em situações conflitivas que envolvam conteúdos morais, como pode
exercer um papel regulador entre a ação e o juízo, quando a situação solicitar
da consciência ações para recuperar o equilíbrio psíquico.
Trabalhamos, na ocasião, com a hipótese de que o sentimento de
vergonha pode ser considerado um “regulador moral” (dentre vários possíveis),
pertencendo ao sistema afetivo do sujeito psicológico, quando sua ocorrência
estiver relacionada aos fracassos, às imperfeições, às inadequações e às
fraquezas do sujeito diante das regras e de seus valores morais. Os resultados
encontrados confirmaram esta hipótese e nos permitiram concluir, também, quea intensidade desse regulador varia de acordo com o posicionamento mais
central ou periférico da regra ou valor na personalidade dos sujeitos.
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sábado, 30 de março de 2013

Como Dizia Meu Pai



Fernando Sabino

JÁ SE TORNOU HÁBITO MEU, em meio a uma conversa, preceder algum comentário por uma introdução:

— Como dizia meu pai...

Nem sempre me reporto a algo que ele realmente dizia, sendo apenas uma maneira coloquial de dar ênfase a alguma opinião.

De uns tempos para cá, porém, comecei a perceber que a opinião, sem ser de caso pensado, parece de fato corresponder a alguma coisa que Seu Domingos costumava dizer. Isso significará talvez — Deus queira — insensivelmente vou me tornando com o correr dos anos cada vez mais parecido com ele. Ou, pelo menos, me identificando com a herança espiritual que dele recebi.

Não raro me surpreendo, antes de agir, tentando descobrir como ele agiria em semelhantes circunstâncias, repetindo uma atitude sua, até mesmo esboçando um gesto seu. Ao formular uma idéia, percebo que estou concebendo, para nortear meu pensamento, um princípio que se não foi enunciado por ele, só pode ter sido inspirado por sua presença dentro de mim.

— No fim tudo dá certo...

Ainda ontem eu tranqüilizava um de meus filhos com esta frase, sem reparar que repetia literalmente o que ele costumava dizer, sempre concluindo com olhar travesso:

— Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim.

Gosto de evocar a figura mansa de Seu Domingos, a quem chamávamos paizinho, a subir pausadamente a escada da varanda de nossa casa, todos os dias, ao cair da tarde, egresso do escritório situado no porão. Ou depois do jantar, sentado com minha mãe no sofá de palhinha da varanda, como namorados, trocando notícias do dia. Os filhos guardavam zelosa distância, até que ela ia aos seus afazeres e ele se punha à disposição de cada um, para ouvir nossos problemas e ajudar a resolvê-los. Finda a última audiência, passava a mão no chapéu e na bengala e saía para uma volta, um encontro eventual com algum amigo. Regressava religiosamente uma hora depois, e tendo descido a pé até o centro, subia sempre de bonde. Se acaso ainda estávamos acordados, podíamos contar com o saquinho de balas que o paizinho nunca deixava de trazer.

Costumava se distrair realizando pequenos consertos domésticos: uma bóia de descarga, a bucha de uma torneira, um fusível queimado. Dispunha para isso da necessária habilidade e de uma preciosa caixa de ferramentas em que ninguém mais podia tocar. Aprendi com ele como é indispensável, para a boa ordem da casa, ter à mão pelo menos um alicate e uma chave de fenda. Durante algum tempo andou às voltas com o velho relógio de parede que fora de seu pai, hoje me pertence e amanhã será de meu filho: estava atrasando. Depois de remexer durante vários dias em suas entranhas, deu por findo o trabalho, embora ao remontá-lo houvesse sobrado umas pecinhas, que alegou não fazerem falta. O relógio passou a funcionar sem atrasos, e as batidas a soar em horas desencontradas. Como, aliás, acontece até hoje.

Tinha por hábito emitir um pequeno sopro de assovio, que tanto podia ser indício de paz de espírito como do esforço para controlar a perturbação diante de algum aborrecimento.

— As coisas são como são e não como deviam ser. Ou como gostaríamos que fossem.

Este pronunciamento se fazia ouvir em geral quando diante de uma fatalidade a que não se poderia fugir. Queria dizer que devemos nos conformar com o fato de nossa vontade não poder prevalecer sobre a vontade de Deus - embora jamais fosse assim eloqüente em suas conclusões. Estas quase sempre eram, mesmo, eivadas de certo ceticismo preventivo ante as esperanças vãs:

— O que não tem solução, solucionado está.

E tudo que acontece é bom — talvez não chegasse ao cúmulo do otimismo de afirmar isso, como seu filho Gerson, mas não vacilava em sustentar que toda mudança é para melhor: se mudou, é porque não estava dando certo. E se quiser que mude, não podendo fazer nada para isso, espere, que mudará por si.

Às vezes seus princípios pareciam confundir-se com os da própria sabedoria mineira: esperar pela cor da fumaça, não dar passo maior do que as pernas, dormir no chão para não cair da cama. Os dele eram mais singelos:

— Mais vale um apertinho agora que um apertão o resto da vida.

— Negócio demorado acaba não saindo.

— Dinheiro bom em coisa boa.

— Antes de entrar, veja por onde vai sair.

Um dia me disse, ao me surpreender tentando armar um brinquedo qualquer com mãos desajeitadas:

— Meu filho, tudo que é bem feito se faz com os dedos, não com as mãos.

Tenho tido ocasião ao longo da vida de observar como é procedente este seu ensinamento. A mão é grossa, pesada, insensível. Se não fossem os dedos de nada serviria, a não ser para dar bofetadas. Os dedos são refinados, sensitivos, e a eles devemos tudo o que é bem feito e acabado: do mais requintado trabalho manual às mais complicadas operações, da mais fina sensação do tacto à mais terna das carícias.

— Se o cafezinho foi bom, melhor não aceitar o segundo: será sempre pior que o primeiro.

Como tudo mais nessa vida: uma viagem, uma mulher: não repetir, pois a emoção jamais será a mesma da primeira vez. E não desanimar, pois se nascemos nus e estamos vestidos, já estamos no lucro. Nada neste mundo é cem por cento perfeito. Se contamos com mais de cinqüenta por cento, também já estamos no lucro. Quando conseguimos o que é apenas bom, naturalmente devemos continuar aspirando o melhor, se possível - mas perfeição absoluta, só Deus. E creio que Seu Domingos, homem íntegro, reto e temente a Deus, hoje em Sua companhia, não consideraria sacrilégio comentar, naquele seu jeito ladino:

 — E assim mesmo, olhe lá...

Seus conselhos eram de tamanha simplicidade que tinham a força de provérbios nascidos da voz do povo: nada como um dia depois do outro, um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, tudo tem seu tempo. Fosse ele influenciado por leituras piedosas, poderíamos mesmo detectar, aqui e ali, vestígios de inspiração bíblica: tempo de semear, tempo de colher...

— É o que nos acontece.

Há uma diferença sutil entre admitir que as coisas são como são, não como deviam ser, e reconhecer que é o que nos acontece. Aqui, o comentário não pretendia refletir a impossibilidade de modelar (com os dedos) os fatos de acordo com a nossa vontade, mesmo que esta esteja certa. Exprime antes a humilde aceitação da nossa precária condição humana, como frágeis criaturas de Deus. Procura se solidarizar com a desgraça alheia, como a dizer que também estamos sujeitos a ela, somos todos irmãos na mesma atribulação. É o que nos acontece.

Portanto, alegremo-nos! Uma amiga minha, que não o conheceu, busca nele se inspirar quando afirma, sempre que se vê diante de algum contratempo:

— Antes de mais nada, fica estabelecido que ninguém vai tirar o meu bom humor.

Acabei levando esta disposição de minha amiga às últimas conseqüências: o mais importante é não perder a capacidade de rir de mim mesmo. Como Cartola e Carlos Cachaça naquele samba, às vezes dou gargalhadas pensando no meu passado.. . E cada vez acredito mais no ensinamento recebido não sei se de meu pai ou diretamente de Confúcio, segundo o qual há várias maneiras de realizar um desejo, sendo uma delas renunciar a ele. Como adverte outro sábio, se desejamos obstinadamente alguma coisa, é melhor tomar cuidado, porque pode nos suceder a infelicidade de consegui-la.

Tudo isso que de uns tempos para cá vem me vem ocorrendo, às vezes inconscientemente, como legado de meu pai, teve seu coroamento há poucos dias, quando eu ia caminhando distraído pela praia. Revirava na cabeça, não sei a que propósito, uma frase ouvida desde a infância e que fazia parte de sua filosofia: não se deve aumentar a aflição dos aflitos. Esta máxima me conduziu a outra, enunciada por Carlos Drummond de Andrade no filme que fiz sobre ele, a qual certamente Seu Domingos perfilharia: não devemos exigir das pessoas mais do que elas podem dar. De repente fui fulminado por uma verdade tão absoluta que tive de parar, completamente zonzo, fechando os olhos para entender melhor. No entanto era uma verdade evangélica, de clareza cintilante como um raio de sol, cheguei a fazer uma vênia de gratidão a Seu Domingos por me havê-la enviado:

Só há um meio de resolver qualquer problema nosso: é resolver primeiro o do outro.

Com o tempo, a cidade foi tomando conhecimento do seu bom senso, da experiência adquirida ao longo de uma vida sem maiores ambições: Seu Domingos, além de representante de umas firmas inglesas, era procurador de partes — solene designação para uma atividade que hoje talvez fosse referida como a de um despachante. A princípio os amigos, conhecidos, e depois até desconhecidos passaram a procurá-lo para ouvir um conselho ou receber dele uma orientação. Era de se ver a romaria no seu escritório todas as manhãs: um funcionário que dera desfalque, uma mulher abandonada pelo marido, um pai agoniado com problemas do filho — era gente assim que vinha buscar com ele alívio para a sua dúvida, o seu medo, a sua aflição. O próprio Governador, que não o conhecia pessoalmente, certa vez o consultou através de um secretário, sobre questão administrativa que o atormentava. Não se falando nos filhos: mesmo depois de ter saído de casa, mais de uma vez tomei trem ou avião e fui colher uma palavra sua que hoje tanta falta me faz.

Resta apenas evocá-la, como faço agora, para me servir de consolo nas horas más. No momento, ele próprio está aqui a meu lado, com o seu sorriso bom.

O texto acima foi publicado originalmente no livro "
A Volta por Cima" e extraído de "Fernando Sabino - Obra Reunida, Vol. III", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.611.

quarta-feira, 20 de março de 2013

É PREFERÍVEL PEDIR DESCULPAS DEPOIS, DO QUE PEDIR LICENÇA ANTES. (texto antigo)





                                                     A assertiva consta de um trabalho editado pela Associação Brasileira de Anunciantes, com opiniões de jornalistas famosos a respeito do tema: Jornalismo é... quem cita é nada menos do que Salomão Esper, jornalista consagrado. Se ele pode, eu também...
                                                    Já vi mais de um veículo de comunicação tentar conseguir as benesses de administrações e do poder, em forma de publicidade e levar um pé no rabo. Nesse sentido, tenho visto vários “pés” na nossa e em vizinhas cidades que tentam arrancar publicidade para falar bem e não falar as verdades da nossa administração.
                                                   A bem da verdade, a livre imprensa da cidade deve tirar o cavalo da chuva pois desse mato não sai coelho.
                                                     Segundo pesquisas não comprovadas, a profissão mais respeitada no Brasil, é a de jornalista. Tivemos casos onde a imprensa quase que como um todo julgou, condenou e acabou com a vida de algumas pessoas  divulgando  fatos mentirosos e não comprovados que levaram ao caos famílias inteiras. Recentemente o ridículo Ratinho, mau caráter com acesso á mídia, teria conseguido altíssimos índices de IBOPE colocando no ar polêmicas  a respeito da condição familiar da apresentadora Angélica, fatos esses que eram de  seu conhecimento e pouco prováveis para não dizer logo falsos e mentirosos.
                                                      A punição ao falso jornalista deve ser exemplar. Travestido de apresentador, o palhaço fez as vezes de jornalista usurpando a profissão regulamentada que tem maior índice de respeitabilidade no país. Tal qual falso médico receitando e operando, quem tem acesso à mídia precisa ser habilitado, responsável e responsabilizado, para não se permitir que a imprensa siga a trilha das demais instituições que estão falindo pelo desrespeito e impunidade.
                                                       É por isso que a frase: é preferível pedir desculpas depois, do que pedir licença antes ,é prerrogativa dos jornalistas que honestamente pesquisam e verificam, antes de acusar e condenar, se bem que na nossa cidade, para acusar de desmandos a administração nem é preciso ou procurar muito, basta olhar e fotografar mansões e carrões comprado com os milhões que devem ganhar os funcionários com seus polpudos salários de marajás ou... quem quiser que conte outra...
                                                                                                   

quinta-feira, 14 de março de 2013

Chegou o verão!




Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura
e muita gordura, pouco trabalho e muita micose.

Verão é picolé de Kisuco no palito reciclado, é milho cozido na água
da torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca.

Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no
tênis.

Mas o principal ponto do verão é.... A praia!

Ah, como é bela a praia.

Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.

Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.

Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a
prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.

O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do
sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estão
chegando.

Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três
geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa,
toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de
férias.

Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados
e prontos pra enterrar a avó na areia.

E as crianças? Ah, que gracinhas! Os bebês chorando de desidratação,
as crianças pequenas se socando por uma conchinha do mar, os
adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem.

As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho
afogado e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do
chinelo.

Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como furar a areia pra
fincar o cabo do guarda-sol.

É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar
em pé.

Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da
maravilha que é entrar no mar!

Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de
cerveja no fundo.

Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.

Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita
cheia de areia, vem àquela vontade de fritar na chapa.

A gente abre a esteira velha, com o cheiro de velório de bode, bota o
chapéu, os óculos escuros e puxa um ronco bacaninha.

Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor!!!!!

Mas, claro, tudo tem seu lado bom.

E à noite o sol vai embora.

Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma
banho e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo.

O shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa,
desde creme de barbear até desinfetante de privada.

As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa da praia
oferece.

Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede
pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.

O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.

Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e
torcendo, pra que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo
possa se encontrar no mesmo inferno tropical...

Luís Fernando Veríssimo

sábado, 9 de março de 2013

A fotografia da vida



Comparando a vida com a fotografia, muitas pessoas fotografam sem a preocupação de tirar fotos boas, que elas estejam no foco ou que o enquadramento seja harmonioso.
Certas pessoas são criadas sem grandes cuidados pelos pais, apreendem alguma coisa na escola, especialmente namorar no curso médio e beber no superior.
Formam-se maus médicos, péssimos advogados,políticos corruptos e pais incompetentes. Vão levando a vida como fotografias mal tiradas. Sem foco.

sexta-feira, 8 de março de 2013

O Corinthians na Bolívia, o Porsche no cruzamento e o bambolê jurídico-midiático



Ucho Haddad –
Acreditando que é o quarto Poder neste país que mais parece uma barafunda, a imprensa peca ao não cumprir o seu papel de informar de maneira clara, didática e isenta, proporcionando a chance de o cidadão raciocinar, e erra quando chama para si a prerrogativa burra de condenar por antecipação. Isso normalmente acontece quando o universo midiático sofre uma escassez de manchetes ou quando o oportunismo barato serve para alguém.

Não é esse o papel da imprensa, por mais que discordem os profissionais da área. O Corinthians foi à Bolívia para disputar uma partida válida pela Copa Libertadores da América, mas o confronto com a equipe do San José acabou em tragédia. Um artefato pirotécnico acionado por algum torcedor alvinegro e apontado na direção da torcida adversária tirou a vida do jovem Kevin Douglas Beltrán Espada, de 14 anos, na cidade de Oruro.
Como era de se esperar, o Corinthians foi a bola da vez nesta quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013, com direito a ser alçado ao patíbulo da culpa. É preciso parcimônia ao analisar os fatos, pois os excessos de alguns comunicadores sugerem que o atual campeão mundial de futebol deve ser excluído da competição. Isso chama-se “achismo”, no linguajar comum, e exercício arbitrário da própria razão, no jargão jurídico.
Passemos à análise dos fatos… O Corinthians joga em outro país e seus torcedores o seguem. Um dos integrantes da torcida comete um crime e o clube é culpado? Há nesse raciocínio um tremendo equívoco, que serve como muro de arrimo para o sensacionalismo barato. De chofre é preciso destacar que no caso em questão prevalecem as leis da Bolívia, pois foi neste país que o homicídio foi cometido, seja ele doloso ou culposo. Como no Direito Penal não há concurso de culpas, o único culpado pelo crime é o torcedor que acionou o rojão. Querer punir o Corinthians é exacerbação do raciocínio.
Tomo, então, outro prisma de análise. Na Bolívia não é proibido o manuseio de fogos de artifício em arenas esportivas, segundo relatou a afobada imprensa brasileira. Se isso for verdade, o furdunço perde força. Se o Corinthians tem culpa, como sugerem alguns jornalistas, no rol dos culpados devem estar as autoridades de segurança pública da Bolívia, o San José – mandante da partida – e a entidade que organiza o certame internacional. Na verdade, o que se busca a partir do entendimento múltiplo e confuso é provocar um tsunami com apenas um copo d’água.
Certo seria se a entidade responsável pela Copa Libertadores da América estabelecesse previamente, com a anuência dos clubes participantes e das autoridades dos respectivos países, as regras básicas de segurança, intransponíveis em qualquer situação. A partir dessa medida poder-se-ia discutir a eventual culpa do Corinthians. Para que o meu pensamento sobre o assunto fique claro, tomo o escândalo do Vaticano como exemplo inverso. Os operadores da Santa Sé cometem seus crimes há décadas e por conta disso todos os católicos são culpados? Não é assim que funciona o Direito Penal.
Trago o exemplo para o Brasil… O caso do atirador do cinema, em um shopping da cidade de São Paulo. O cidadão entra na sala de cinema armado, dispara a esmo, mata catorze pessoas e fere outras cinquenta, e o dono do cinema é culpado? Claro que não! Concurso de culpas há no Direito Civil, não no Penal, como já salientei.
Não se trata de querer salvar o Corinthians, mas de não colocar a culpa sobre quem não é culpado. E se no regulamento da Copa Libertadores não estão definidas regras de segurança, a ausência das mesmas é motivo para que não haja punição ao clube brasileiro.
Essa mania obtusa de culpar por antecipação e aquele que culpado não é está se tornando rotina no Brasil, onde as leis são desrespeitadas e a interpretação que se dá a cada uma delas depende do caso e do interesse dos envolvidos em determinado crime. Não é preciso fazer longa viagem no tempo para confirmar o que muitos já sabem. O caso do acidente automobilístico que ocorreu na Zona Sul da capital paulista e ganhou o noticiário apenas porque um dos veículos envolvidos era um Porsche, é o melhor exemplo dessa confusão que causa a condenação antecipada por parte da mídia.
Criou-se no Brasil o péssimo hábito de acreditar em uma crendice obtusa: quem tem posses é obrigatoriamente um tresloucado. Essa não é a tradução da realidade. Há endinheirados descontrolados, como há ricos equilibrados. De igual modo existem desprovidos materialmente responsáveis, como existem desafortunados materialmente que são “doidos”. Por qual razão a imprensa usa a régua do próprio interesse para medir um determinado fato. É preciso usar a régua do bom senso, da verdade, sob pena de assim não fazendo acabar empurrando a culpa para quem não deve.
Volto ao caso do Porsche. O engenheiro Marcelo Malvio Alves de Lima saiu com seu Porsche de um restaurante na região do Itaim Bibi, contigua aos Jardins, e ultrapassou o limite de velocidade permitido em determinada via. O que é isso? Infração de trânsito. Na rua transversa, a advogada baiana Carolina Menezes Cintra Santos dirigia o seu carro na madrugada e ultrapassou o sinal vermelho, chocando-se com o Porsche de Malvio. O que representa esse conjunto de fatos? Um acidente envolvendo dois veículos na maior cidade brasileira e o cometimento de duas infrações de trânsito: o excesso de velocidade por parte do engenheiro e o desrespeito ao sinal vermelho pela advogada.
Tudo acabaria em alguma Vara Cível da Justiça paulistana não fosse o fato de Carolina Menezes ter morrido no local do acidente. Por conta desse trágico detalhe o panorama de análise mudou sobremaneira. Passou a ser um caso de, no máximo, homicídio culposo, pois não houve a intenção de matar do motorista do Porsche. Na verdade, Carolina foi vítima não do Porsche veloz de Marcelo Malvio, mas de sua imprudência ao ignorar uma lei de trânsito do crime de dirigir embriagada, o que foi atestado por peritos da Polícia Civil.
Inverter a culpa é algo muito fácil, dependendo da necessidade de quem o faz ou do interesse de quem encomenda a alternância, no caso do acidente, criminosa. Seguindo a lógica do raciocínio, o que não significa que é regra, quem tem um Porsche quase novo não é um desprovido em questões financeiras. Marcelo Malvio é um profissional da engenharia e cumpridor de suas obrigações. Carolina Menezes, filha de família abastada de Salvador, era advogada supostamente competente, pois trabalhava em um conhecido escritório de advocacia de São Paulo, cuja matriz é no Rio de Janeiro. Dirigir sob o efeito de álcool é crime, como se sabe, mas não se poderia arrastar o escritório de advocacia ao cerne da culpa caso o resultado do acidente fosse inverso. Ou seja, se Marcelo Malvio tivesse morrido e Carolina Menezes, sobrevivido.
No caso do acidente automobilístico ocorreu uma estranha inversão da verdade na feitura do boletim de ocorrência policial, o que levou o Ministério Público a interpretação equivocada. Marcelo Malvio foi denunciado por homicídio doloso, quando há a intenção de matar, o que é um absurdo por parte da acusação. Acontece que Carolina Menezes gravitava na órbita de um grupo de gente poderosa e extremamente endinheirada. Apenas para que fique registrado.
A situação de Marcelo Malvio e similar à do Corinthians. Que culpa tem o alvinegro paulistano se um torcedor do clube foi à Bolívia e no estádio de Orocuro acionou um artefato pirotécnico e apontou-o na direção de um jovem, tirando-lhe a vida? Nenhuma! Mesmo que o clube tenha financiado a ida deste torcedor até o país sul-americano, não há como penalizar o Corinthians. Que culpa tem Marcelo Malvio, mesmo que tenha excedido o limite de velocidade, se naquela noite Carolina Menezes havia bebido e dirigindo ignorou o sinal vermelho? Nenhuma!
O que a mídia tenta fazer no caso do Corinthians é o mesmo que fez no caso do acidente que envolveu Malvio e Carolina. Jogar um caminhão de areia diante de um ventilador ligado. Cria-se uma nuvem enorme de poeira, discute-se à exaustão um punhado de conjecturas, permite-se que a verdade seja manipulada e que inocentes sejam culpados. Um Estado Democrático de Direito não pode ser refém do sensacionalismo da imprensa e muito menos de condenações antecipadas, as quais interessam a uns e beneficiam outros.
Não se pode prever o que acontecerá com o Corinthians e com Marcelo Malvio, pois a Justiça é uma usina de surpresas. Contudo, pelo menos um fato é absolutamente certo. Ambos, o Corinthians e Malvio, são inocentes, além de serem vítimas de um “bambolê” jurídico-midiático que funciona à base de um coquetel de achismos com exercício arbitrário da própria razão.
Alegar que é preciso punir um inocente de destaque para dar o exemplo a sociedade é covardia moralista. Eis a grande mazela de boa parte da imprensa nacional. Muita gente que se acha até agora não se encontrou.
Independentemente de quem sejam a culpa, que o jovem torcedor boliviano e a advogada baiana descansem em paz.

domingo, 3 de março de 2013

Razão e paixão - HENRIQUE MEIRELLES FOLHA DE SP - 03/03


domingo, março 03, 2013



As votações expressivas do desgastado Silvio Berlusconi e do comediante Beppe Grillo, somadas aos resultados frustrantes de Pier Luigi Bersani e do premiê Mario Monti, proporcionam uma fascinante visão da psique italiana.

Para quem gosta muito da Itália e dos italianos, preocupa ver como decisões econômicas tão relevantes foram tomadas com debate intelectual de baixa profundidade e alta densidade emocional.

É o que tem ocorrido em países do sul da Europa e da América Latina, num grande contraste em relação ao debate econômico na maior parte do norte europeu, particularmente nos países nórdicos. Lá, ele tende a ser racional, frio e intelectualmente denso, com diversas correntes buscando conquistar, pela razão, formadores de opinião, tomadores de decisão e eleitores.

Talvez não seja coincidência que a situação econômica do norte europeu seja muito melhor que a do sul, o que traz um alerta importante para a qualidade do debate econômico no Brasil.

Devemos estar atentos ao debate, marcado por alta dose de paixão -com declarações extremadas, desqualificação de oponentes ou de quem pensa diferente- e pela busca de influência ou predominância baseada mais na força das palavras do que dos

argumentos, sem muito cui-dado com a essência e a busca de evidências factuais. O resultado disso é, muitas vezes, desastroso.

Aprendi, na vida profissional, que a força dos argumentos está nos seus resultados. Temos que analisar o histórico da aplicação de teorias ou diagnósticos econômicos para concluir sobre sua aplicabilidade a cada situação.

Apesar do seu componente artístico, a ciência econômica tem semelhanças com diversas áreas da pesquisa, como a medicina, por exemplo. Quando se pesquisa doenças e disfunções, é muito perigoso basear-se na força das paixões e na elegância dos argumentos para definir o tratamento -que tem de ser buscado em evidências concretas coletadas em diagnósticos e práticas já aplicadas. Seria muito negativo se a medicina fosse guiada por debate apaixonado com desqualificação de oponentes e defesa emocional de tratamentos.

É natural que conflitos de interesse acirrem emoções. O importante é manter o foco no dado concreto, observar o resultado de cada proposta e, a partir daí, traçar o caminho não só na economia, mas em todas as áreas do conhecimento.

Hoje, os países com maior progresso econômico ou em melhor situação -no norte da Europa, a China e outros Estados asiáticos ou mesmo os EUA- mostram que o debate baseado na razão é superior ao que se apoia na paixão, por mais fascinante que possa ser o debate apaixonado.